Direções para um ano verdadeiramente novo

Por Jônatas da Cunha Ferreira

Sempre chega um momento na vida da gente em que precisamos fechar para balanço. Fazer uma pausa para considerar o que já vivemos, o que fizemos ou deixamos de fazer. E uma parada para avaliar o que ainda queremos e teremos condição de buscar. É um tempo de escuta e introspecção para reavaliar o caminho percorrido e, também, hora adequada para erguer a cabeça, olhar para frente e buscar as mudanças que precisamos, sempre confiando no cuidado soberano de Deus.

O ano novo é uma oportunidade que temos regularmente para isso. A cada 365 dias temos a chance de fazer esse tipo de balanço. E apesar de ser apenas mais um dia depois de outro, o ano novo representa o início de um novo ciclo. Algo que nos permite ter esperança de romper com velhos hábitos ou circunstâncias e começar um novo ato da nossa história pessoal.

Mas, se nossas ideias, sentimentos e crenças não estiverem em uma ordem coerente em nossas mentes e corações, esses momentos, que seriam oportunidades para grandes mudanças, podem se tornar ocasiões propícias para o cometimento de erros, às vezes, irreparáveis. Por isso, precisamos de uma fonte externa de luz em nossa mente que nos dê a clareza necessária para colocar ordem no caos dos cantos escuros da alma.

E só há uma fonte possível e de luz suficiente para colocar nossa mente em ordem — a Escritura!

É exatamente essa convicção que domina o rei Davi quando escreveu o Salmo 119. Através dessa bela poesia somos convidados a perceber o valor da leitura, do aprendizado, do estudo contínuo, da reflexão e da memorização das Escrituras como instrumento imprescindível para forjar em nós uma mente e coração novos para vivermos uma vida verdadeiramente transformada, mesmo sem mudar as circunstâncias.

É como no livro O Peregrino, de John Bunyan, que nos fala de um jovem em sua caminhada até a Jerusalém celestial. Ele segue sua jornada pelo caminho estreito, transpondo obstáculos e adversidades. Sua caminhada não é fácil, mas a lâmpada da Escritura está sempre iluminando sua jornada.

Um ano novo sempre nos traz a esperança de mudanças, novos ares, novas realizações, ruptura com maus hábitos… enfim, esperança de progressos em nossas vidas. Pensamos: ano novo, vida nova! Mas… será? Deus nos oferece neste Salmo, especialmente nos versos 105 a 112, algumas direções para vivermos um ano verdadeiramente novo…

1. Andar na sabedoria do Evangelho

Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos. Jurei e confirmei o juramento de guardar os teus retos juízos. (vv.105,106)

No trecho anterior Davi falou de seu amor pela Escritura como fonte de sabedoria excelente (cf. vv.97-100). Agora ele fala que a Palavra de Deus é a luz necessária em momentos de transição, turbulência ou escuridão.

Nos dias do salmista não existia iluminação pública. Se alguém quisesse sair de casa durante a noite, precisaria  levar uma lâmpada, geralmente de azeite, para evitar os perigos que a escuridão da noite escondia. Davi usa essa metáfora para descrever um tesouro inestimável recebido quando somos ensinados pela Palavra de Deus: temos luz suficiente em nossa mente e coração para andar retamente e com clareza de propósitos, e não ficar mais caminhando aleatoriamente, sem saber aonde ir, presos a vaidade dos pensamentos ou simplesmente empurrados pelas influências das culturas de massa. Para entender a intenção de Davi, devemos notar que o Evangelho está notoriamente em oposição a diversos conselhos humanoso que o mundo julga certo é, muitas vezes, torto e perverso no julgamento de Deus.

O evangelho não é uma verdade ao lado de outras verdades. mas é a verdade que questiona todas as demais verdades. O evangelho não é a folha da porta, mas a dobradiça. (Karl Barth)

Por isso, os retos juízos de Deus revelados em Cristo, quando bem guardados no coração e na mente (v.106), são o farol que ilumina as nossas ideias e crenças, trazendo sentido e coerência para a vida, dando direção ao caminho pelos quais andamos; são a sabedoria de Deus para dirigir nossos passos e o discernimento que precisamos em meio a dúvidas, escolhas e angústias. A Palavra de Deus revelada em Cristo é o evangelho — a boa nova que não precisamos mais ficar na escuridão de nossos próprios pensamentos e ideias torcidas pelo pecado, mas temos luz suficiente para guiar-nos para fora da turbulência.

No ano novo, se a vida continuar a ser vivida sem deixarmos moldar ideias e sentimentos pelo Evangelho, quase nada mudará. Porém, se em 2018 Cristo for o Senhor da sua mente e você cultivar um coração ensinável para a sabedoria da Escritura, então, seu ano será verdadeiramente novo, extraordinário e abundante!

Não é o ano que muda… é a gente que muda. Para que o ano seja novo precisamos nos arrepender do ano velho. Arrependimento é um privilégio. Se queremos um ano novo, devemos pedir ao Senhor a oportunidade de mudar de ideia…

Por isso, o balanço que precisamos fazer é: tenho formatado meus pensamentos, meus conceitos sobre o que é certo ou errado, minhas prioridades e minhas expectativas sobre a vida através do Evangelho de Cristo de modo que ele traga luz e discernimento para minhas escolhas?

2. Buscar o consolo no Evangelho

Estou aflitíssimo; vivifica-me, Senhor, segundo a tua palavra. Aceita, Senhor, a espontânea oferenda dos meus lábios e ensina-me os teus juízos. (vv.107,108)

Na sua aflição, Davi pede a Deus: Senhor, dá-me forças e renova meu ânimo através da tua Palavra. Davi implora a Deus pela graça, não para que sua vida seja preservada em segurança, mas para recuperar a vida que perdeu. Essa oração nos indica que Davi talvez estivesse tão desgastado fisicamente e deprimido emocionalmente, que aguardava apenas a morte. No entanto, ao mesmo tempo, embora cercado pela morte, ele não desmaiou porque se inclinou para Deus por meio do desejo de aprender (v.108) e de memorizar as Escrituras (v.112)

Jurar fidelidade ao evangelho não garante um atestado de imunidade contra dificuldades. Mas, ao mesmo tempo, são as ricas promessas de Deus no evangelho que nos inspiram coragem em nossas tristezas. São as luzes da mensagem gloriosa do evangelho que iluminam e dão cor aos dias cinzentos e angustiados ao nos falar da esperança certa de dias futuros em que tudo que hoje nos deixa inquietos, ansiosos e tristes não mais existirá, e que mais nenhuma lágrima será derramada (cf. Ap 21.4).

Buscar o consolo no Evangelho é uma das formas de andar em sua sabedoria excelente. A luz que as Escrituras lançam em nosso coração para nos dar uma vida verdadeiramente nova reordenam nossas crenças e nossa mente para esperar com confiança nas promessas do Evangelho e no Deus soberano, justo e bom que deu seu Filho único para nos dar a vida eterna.

3. Manter-se na obediência ao Evangelho

Estou de contínuo em perigo de vida; todavia, não me esqueço da tua lei. Armam ciladas contra mim os ímpios; contudo, não me desvio dos teus preceitos. (vv.109,110)

Ainda descrevendo suas aflições, Davi diz que nenhuma calamidade, perseguição, aflição ou perigo que ele tenha experimentado o retirou do serviço a Deus, do amor, do estudo e da obediência a sua Palavra. Literalmente Davi diz: minha alma está continuamente em minhas mãos. Uma expressão que equivale a seu perigo de vida e a iminência de sua própria morte, como se sua alma estivesse abandonada ao vento, sendo arrancada do seu lugar. É nessa circunstância que ele diz: eu não me esqueço da tua lei. Mesmo estando cercado por todos os lados de armadilhas de morte, eu espero em obediência a tua Palavra.

Como é difícil não nos desviarmos da vontade do Senhor quando inimigos, por meio de artes sutis, tentam nos atingir ou derrubar. O desejo pecaminoso de nossa natureza caída nos incita a retaliar, e não vemos nenhum modo de preservar nossa vida, a menos que usemos as mesmas armas com as quais somos atingidos. Como é duro dar a outra face e caminhar a segunda milha. Como é difícil para nossa natureza pecaminosa amar nossos inimigos e orar pelos que nos perseguem.

Mas, mesmo sendo tão difícil, o melhor que podemos fazer é seguir pelo caminho que Deus nos chama, esperando sempre em obediência ao Evangelho. Essa obediência a tudo aquilo que Ele já revelou para nós em sua Palavra é a melhor forma de esperar o livramento que virá de suas mãos.

4. Alimentar-se da alegria do Evangelho

Os teus testemunhos, recebi-os por legado perpétuo, porque me constituem o prazer do coração. Induzo o coração a guardar os teus decretos, para sempre, até ao fim. (vv.111,112)

Davi confirma um sentimento que não é repetido em vão — que a Lei de Deus é mais preciosa para ele que todos os prazeres e riquezas do mundo: Eu recebi a tua Palavra como herança de riqueza eterna porque são o prazer do meu coração. Nada me enriquece e alegra mais que os teus testemunhos. Por isso, obrigo meu coração e a minha mente a memorizar a tua lei para jamais me esquecer dela. Davi possui uma alegria tão grande na Escritura que não considera nada mais precioso. Deus era o grande tesouro do seu coração.

Isso é tão importante porque vemos quão rapidamente as pessoas tem fervido para satisfazer suas cobiças desordenadas enquanto se agitam em ansiedades por obter inúmeros objetos de seus desejos. São poucos que tem o seu prazer na Lei do Senhor e nela meditam de dia e de noite. São poucos os que encontram em Cristo o maior tesouro que satisfaz a toda necessidade do coração.

Se Cristo for removido do seu coração, nem o universo inteiro poderá preencher o vazio criado. Se não encontrarmos nossa alegria em Deus, não a encontraremos em lugar nenhum e nenhuma outra coisa satisfará realmente os desejos do nosso coração. E o ano novo ficará cheio de velhas insatisfações — insatisfeitos com as circunstâncias, com a situação econômica que assola, com a casa em que mora, com as roupas que veste, com a comida à mesa, com o casamento, com o emprego, com o sol e com a chuva, com o frio e com o calor… sempre desejando algo que não temos, cobiçando uma vida que não é a nossa.

Por isso, precisamos nos alimentar da alegria do evangelho. Como? Obrigando o coração a memorizá-lo e  meditar nele todos os dias (v.112). Não fazendo das Escrituras um pirulito é lambido superficialmente a cada fim de semana, mas o pão diário que alimenta a nossa mente com a verdade e o farol brilhante que ilumina os nossos caminhos, sentimentos, decisões e expectativas.

Para refletir e praticar temos que nos perguntar: As Escrituras tem sido seu mestre e seu guia para conduzir você a uma vida santa? Elas têm sido o seu alimento diário e a luz que molda a sua mente? Que ideias e sentimentos você tem deixado confrontar em seu coração pela verdade das Escrituras para que exista realmente uma mudança para o futuro? De que maneira seu ano precisa ser verdadeiramente novo?

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