Sobre o batismo infantil

O batismo infantil está entre as doutrinas e práticas das igrejas reformadas que mais causa estranheza a quem faz parte de outra tradição evangélica por ter-se criado uma associação com a prática da católico-romana. Todavia, historicamente a compreensão da tradição reformada sobre o batismo inclui o batismo infantil, sendo este bastante diferente da prática católico-romana, que batiza, indiscriminadamente, qualquer criança.

A título de introdução história, a prática do batismo exclusivo de adultos iniciou-se apenas no século XVII. Antes disso o batismo infantil era a prática comum. Herman Bavink, na Dogmática Reformada, decreve, mostrando que ainda no século XIX predominava o batismo infantil:

“Hoje em dia, a maioria das igrejas conhece o batismo, virtualmente, apenas como batismo infantil. Com exceção dos campos missionários [em países não cristãos] e das igrejas batistas, o batismo de adultos é uma exceção”.

A prática do batismo apenas de adultos cresceu, portanto, apenas no século XX com o surgimento e o crescimento das igrejas pentecostais. Assim, batistas e pentecostais (a maioria em nosso contexto) não batizam crianças e só reconhecem o batismo por imersão. As denominações protestantes históricas (luterana, reformada, anglicana, presbiteriana, metodista, etc.), diferentemente, batizam crianças e reconhecem a legitimidade de ambos os métodos (imersão e aspersão), preferindo a aspersão.

1. A NATUREZA DO BATISMO

Para os reformados os dois sacramentos ordenados por Jesus para serem observados são o batismo e a ceia do Senhor. Os sacramentos são santos sinais e selos do pacto da graça, imediatamente instituídos por Deus para representar Cristo e seus benefícios, e confirmar o nosso interesse nele, bem como para fazer uma diferença visível entre os que pertencem à Igreja e o restante do mundo, e solenemente comprometê-los no serviço de Deus em Cristo, segundo a sua Palavra.

1.1 NÃO É UM MEIO DE SALVAÇÃO

O batismo NÃO é um meio de salvação. O batismo ministrado nem tem em si mesmo poder salvador, como admite o catolicismo-romano, Quem é batizado não é salvo porque é batizado — sabemos que a salvação é tão somente pela fé.

1.2 NÃO É UMA PROVA DA SALVAÇÃO

O batismo NÃO é em si mesmo uma prova cabal da salvação daquele que recebeu o sacramento. Ele não prova a admissão do indivíduo na igreja invisível, mas tão somente na igreja visível. Alguém pode ser batizado, tendo publicamente afirmado crer, mas sem nunca ter realmente experimentado o arrependimento e a fé salvadora. Há diversos exemplos de membros professos da igreja tanto no AT como no NT, os quais foram circuncidados/batizados, mas que nunca experimentaram o lavar regenerador do Espírito Santo. Auxiliares diretos do Apóstolo Paulo, como Demas, abandonaram a fé cristã por amarem o presente século (2Tm 4.10).

“Nem todos os de Israel são de fato israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos seus filhos; mas em Isaque será chamada a sua descendência. Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne, mas devem ser considerados como descendência os filhos da promessa (Rm 9:6-8)”

1.3 NÃO É ESSENCIAL À SALVAÇÃO

O batismo também NÃO é essencial a salvação — como entende o catolicismo-romano. A bíblia não condiciona a salvação à formas ou rituais externos (Jo 4.21-24). O ladrão arrependido na cruz é evidência disso. Jesus afirmou que naquele mesmo dia ele estaria consigo no paraíso, sem batismo algum.

2. A CONTINUIDADE DO PACTO DA REDENÇÃO

O pressuposto básico para compreensão reformada dos sacramentos (tanto do batismo como da ceia) é a continuidade da revelação da obra da redenção ou, em outras palavras, a continuidade no Novo Testamento do pacto da redenção que se inicia no Antigo Testamento (Gn 3.15). Ambos os Testamentos falam de uma única aliança de redenção, baseada na graça, estabelecido entre Deus e aqueles que escolheu para seu povo (Dt 7.6; 14.2; At 13.17).

A aliança que Deus fez com Abraão, chamada pelos reformados de pacto da graça, é a implementação histórica de uma aliança eterna, e nunca foi anulada. Esta aliança é anterior à lei de Moisés e portanto continua vigorando, é ‘‘aliança eterna’’. É isto o que o Apóstolo Paulo afirma em Gálatas 3.17 ao demonstrar que a lei não pode invalidar a aliança com Abraão, ele diz: ‘‘Uma aliança já anteriormente confirmada por Deus, a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois não a pode ab-rogar (anular), de forma que venha a desfazer a promessa’’.

Isso implica entender o que Antigo e Novo Testamento não ensinam duas religiões diferentes. A Igreja Cristã não é uma outra igreja diferente daquela do Antigo Testamento. Paulo descreve claramente que a Igreja Cristã não é uma nova árvore, mas apenas um galho enxertado na mesma árvore cuja raiz é Abraão (Rm 11.13-24), o ‘‘pai de todos os crentes’’ (Rm 4.11). Abraão é o pai tanto de incircuncisos como de circuncisos, ‘‘que andam nas pisadas da fé antes de ser circuncidado’’ (Rm 4.11-12).

As ordenanças, os símbolos dessa aliança, porém, mudaram: primeiro só a circuncisão; depois foi acrescentado a páscoa, e depois ambas foram substituídas pelo batismo e pela ceia do Senhor. Mas a aliança é a mesma.

3. CONTINUIDADE DOS SACRAMENTOS

Ao compreender que há uma continuidade entre os testamentos, é possível também perceber que os dois sacramentos do Antigo Testamento igualmente não foram abolidos, mas substituídos por símbolos mais amplos da redenção graciosa mais perfeitamente revelada no Novo Testamento.

A páscoa era o sacramento comemorativo da igreja visível onde celebravam a libertação do povo da morte e da escravidão no egito, transformou-se na santa ceia, quando Jesus dela participou pela última vez (Mt 26:26-30), que celebram a liberdade da escravidão do pecado e da morte eterna. Escrevi um artigo devocional sobre isso que pode ser acessado nesse link: https://goo.gl/D4iCxd

A circuncisão era o sacramento de admissão na igreja visível do Antigo Testamento. Era o selo da justiça da fé: “E recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso; para vir a ser o pai de todos os que creem, embora não circuncidados, a fim de que lhes fosse imputada a justiça” (Rm 4.11)

A circuncisão foi suplantada pelo batismo cristão, visto que não mais havia necessidade de derramamento de sangue, pois o Cordeiro já tinha sido imolado. Em Colossenses 2:11-12, o batismo cristão é chamado explicitamente de ‘‘circuncisão de Cristo’’:

“Nele também vocês foram circuncidados, não com uma circuncisão feita por mãos humanas, mas com a circuncisão feita por Cristo, que é o despojar do corpo da carne. Isso aconteceu quando vocês foram sepultados com ele no batismo, e com ele foram ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos. (NVI)”

O argumento do Apóstolo Paulo é evidente: nós cristãos também fomos circuncidados, não com o corte do prepúcio, mas com o batismo cristão que tem a mesma função da circuncisão judaica, podendo portanto até mesmo ser chamado de circuncisão cristã.

Assim, sendo o batismo correspondente à circuncisão, o batismo é, para a Igreja visível no Novo Testamento, o que a circuncisão foi para a Igreja visível no Antigo Testamento: a confirmação — o sinal visível — da aliança que Deus fez com Abraão, o “pai de todos os crentes” (Gn 17.1-13). O batismo cristão, assim como a circuncisão judaica, é, portanto, o sinal externo solene de admissão na igreja visível.

Isto não implica necessariamente em que todos os de Israel (da igreja visível no AT) fossem ou seriam verdadeiros israelitas (membros da igreja invisível), ou seja: que necessariamente fossem ou seriam objeto da graça salvadora. Nem implicava que os gentios (não circuncidados), não pudessem vir a ser verdadeiros israelitas (membros da igreja invisível). A circuncisão implicava em serem considerados povo de Deus, objeto do seu especial cuidado, da sua bênção e da sua revelação.

Assim, o batismo, como a circuncisão, é o rito ou forma externa determinada por Deus para simbolizar e selar a admissão de pessoas na igreja visível, como beneficiários do pacto da graça e objeto do seu cuidado especial. É verdade que o símbolo pressupõe, em geral, o gracioso lavar regenerador do Espírito Santo pela Palavra (Tt 3:5), por meio do arrependimento e da fé; mas não o opera nem o garante.

4. AS CRIANÇAS NO PACTO DA GRAÇA

A questão importante com relação ao batismo infantil como “a circuncisão cristã” é a seguinte: as crianças foram incluídas como beneficiárias do pacto da graça que Deus fez com Abraão. Elas eram circuncidadas ao oitavo dia como sinal e selo da participação na igreja visível e de seu envolvimento no pacto da graça. Não haveria nenhum impedimento em instituir a circuncisão apenas para os adultos. Mas isso não ocorreu. As crianças também foram incluídas, porque era o propósito do Senhor que sua aliança fosse com Abraão e com a sua descendência.

O fato é que a igreja é a mesma. Somos membros de um mesmo corpo. Somos a ‘‘comunidade de pacto’’. Somos os verdadeiros descendentes de Abraão. ‘‘Os da fé é que são filhos de Abraão’’(Gl 3.7). Somos os ramos que foram enxertados e nos tornamos participantes da mesma raiz e da mesma seiva da oliveira (Rm 11.17). O meio de salvação também não mudou. Somos salvos hoje do mesmo modo como foram os crentes na época do Antigo Testamento — pela graça soberana de Deus mediante o arrependimento e a fé nas Suas promessas, entre as quais a principal é a vinda do Messias, o Redentor de Israel (Rm 4.1-17).

Logo, por que razão os filhos dos membros da nova aliança deveriam ser excluídos da comunidade do pacto, da igreja visível? Por que negar-lhes o selo da pacto: o batismo? Creio que não. Por isso o Novo Testamento não exclui as crianças como participantes da aliança da redenção. Ao contrário, elas são explicitamente incluídas: (1). O próprio Senhor Jesus afirmou que eles pertencem ao seu reino: ‘‘Deixai vir a mim os pequeninos e não os embaraceis, porque dos tais é o reino dos céus’’ (Lc 18:16); (2). Pedro confirma que a promessa os inclui: ‘‘Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos, e para todos os que ainda estão longe’’ (At 2:39); (3). O Apóstolo Paulo reconhece a posição dos filhos como ‘‘santos’ (separados), quando pelo menos um dos pais é crente (1Co 7.14).

5. O BATISMO INFANTIL NOS PRIMÓRDIOS DA IGREJA

A história da igreja nos dão a entender que o batismo infantil era uma prática que vinha desde o tempo apostólico. Os Pais da Igreja, de um modo geral, reconhecem e mencionam a prática do batismo infantil. Nove, dentre doze Pais que viveram nos dois primeiros séculos, referem-se à prática do batismo infantil; ex: Justino Mártir (130), Irineu (180), Orígenes (230).

Irineu de Lyon (séc. I) em “Contra as heresias. Livro III, Cap. 19”: “que Cristo mandou a igreja batizar todos os que foram alvos do evangelho, e assim, as criancinhas deveriam ser batizadas”. Orígenes (séc. III) disse que a “Igreja tinha dos apóstolos a tradição(ordem) para administrar o batismo as criancinhas”, em Epist. ad Rom. Livro 5,9.

Posteriormente, Agostinho (séc. IV) afirmou que ‘‘nenhum concílio jamais ordenara o batismo infantil por ser este uma prática que vinha desde os tempos apostólicos; e que nunca ouvira ou lera de alguém na igreja que sustentasse o contrário’’. Dizia: “Desde a Antigüidade a Igreja tem observado o batismo infantil” e ainda, “O costume de nossa igreja mãe de batizar crianças não deve ser desconhecido nem tido como desnecessário; nem se deve crer que seja algo mais do que uma ordenança que nos foi entregue pelos apóstolos” dizia ainda: Não foi instituído por concílios mas sempre esteve em uso”.

O Concílio de Cartago recebeu consulta se era lícito batizar crianças antes de oito dias. O que significa que a prática do batismo infantil após o oitavo dia de vida era comum.

6. OBJEÇÕES

A principal objeção levantada em relação ao batismo infantil é as crianças não possuem discernimento necessário para ter arrependimento e fé. Todavia, como já descrito acima, as crianças no AT (filhos da aliança) também não poderiam se arrepender e ter fé nas promessas (condição para a salvação), mas mesmo assim eram circuncidadas e consideradas membros do povo de Deus (da igreja visível) e beneficiárias da aliança.

A título de exemplificação, a Bíblia também diz: ‘‘Quem não trabalha não coma’’. E as crianças?! Devemos deixá-las com fome, porque não podem trabalhar?! Não. O argumento, portanto, é válido apenas para os adultos que podem exercer a fé. Caso contrário, nenhuma criança que venha a falecer na infância poderia ser salva, uma vez que a Bíblia diz: “Se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis” (Lc 13:3). “Quem nele crê não é condenado; o que não crê já está condenado” (Jo 3:18).

O fato de não existir mandamento explícito para o batismo infantil não o invalida uma vez que não era necessário, pois as crianças (filhos da aliança) sempre foram reconhecidas como membros da igreja visível do Antigo Testamento. Também não existe mandamento explícito instituindo o domingo como o dia do descanso cristão, nem mandamento explícito incluindo as mulheres na Ceia do Senhor!

CONCLUSÃO

Assim os reformadores entenderam o batismo, não excluindo as crianças de receberem o selo da aliança e de pertencimento a igreja visível. Por isso batizamos nossos filhos pequenos, por meio da fé dos pais nas promessas da aliança da redenção em Cristo, crendo que pertencem a esta aliança (At 2.39), dando-lhes o selo do pertencimento a igreja visível, e esperando que na idade da razão possam dizer: “o Deus de meus pais, é também o Deus em quem eu creio e a quem eu sirvo”.


Referência: ANGLADA, Paulo. Batismo: A Circuncisão Cristã. Disponível aqui.

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