Um dos maiores desafios na vida do crente…

Giulia Almeida

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Eu costumava achar que as pessoas eram muito complexas – eu as via como aquele quebra-cabeça de mil peças, complicado de se montar e que muitas vezes parece não ter sentido, aparentemente com peças sobrando e faltando, tudo ao mesmo tempo. Porém, acabei percebendo que não somos tão difíceis assim, na verdade, somos bem simples de se entender. Não é difícil analisar e, até certo ponto, compreender os motivos que levam alguém a fazer alguma coisa, ou se sentir de determinada forma, contudo o difícil é lidar com situações e comportamentos na prática, na “vida real”, porque nos deparamos constantemente com pecado, ou com o nosso ou com o dos outros.

Ter de lidar com a manifestação de quem nós somos, com o que dizemos ou fazemos e com os nossos pecados é o que torna tudo mais difícil, principalmente dentro dos nossos relacionamentos. Esses exigem de nós determinadas ações e reações, respostas adequadas para situações e momentos específicos que muitas vezes falhamos quando tentamos cumprir (ou quando nem ao menos tentamos). A partir do momento que enxergamos todos os nossos relacionamentos como eles realmente são, como árduas missões de lidar com os pecados uns dos outros com o objetivo de elimina-los para a glória de Deus, surge um questionamento: será que não temos frequentemente falhado com o nosso dever de perdoar?

Começando do começo. Mateus 18 em mente.

A Bíblia de Genebra em seus comentários traz como o grande conteúdo do capitulo 18 do livro de Mateus a forma como o povo de Deus deve se relacionar, abordando direta ou indiretamente o que somos, como nós devemos ser e quem Deus é. Esses três pontos-chave que permeiam toda Escritura nos lembram da nossa natureza pecaminosa, de como Deus é soberano, misericordioso e gracioso, e que devemos ser santos, refletindo o amor infinito do nosso Deus e Pai. Esses pontos vão se revelando ao longo do capítulo por meio dos seus temas principais – humildade, cuidado mútuo e perdão – permitindo-nos a compreensão de como devemos nos relacionar de maneira que agrade a Deus.

Ao longo do capítulo o amor infinito de Deus para com seus filhos, sua justiça, misericórdia e o seu prazer na obediência e santidade dos seus servos são evidenciados. Além disso, Jesus nos ensina o primeiro grande mandamento – amar a Deus de todo coração, alma e entendimento (Mateus 22.37) – quando nos diz que devemos nos humilhar, ser como crianças, ou seja, inteiramente dependentes Dele. E o segundo mandamento, o qual nos diz que devemos amar ao próximo como a nós mesmos (Mateus 22.39), é trazido por meio do perdão àquele que peca contra nós.

Análise do caso concreto: ele(a) pecou contra mim?

Na perfeita analogia trazida pela parábola do credor incompassivo (Mateus 18.25-35), o pecado é trazido como uma dívida, e quando essa é perdoada ela é simplesmente anulada, esquecida. Então, para existir a necessidade do perdão, deve ter sido cometido um pecado, deve existir uma dívida que possa ser perdoada. Porém, saber quando alguém de fato peca contra nós é um pouco mais difícil do que parece.

Primeiro preciso dizer que isso requer que nos afastemos um pouco da posição de ofendidos para podermos discernir um pecado cometido contra nós de uma mágoa que foi gerada pela nossa extrema sensibilidade em determinado momento. Quase sempre achamos que quando algo nos ofende ou magoa quer dizer que alguém pecou contra nós e que necessariamente o que essa pessoa fez foi errado e pecaminoso, porém pensar assim é pensar de modo equivocado.

O que vai dizer se alguém cometeu um pecado contra nós é a Bíblia e não os nossos sentimentos feridos. Precisamos entender que devemos submeter nossos pensamentos e sentimentos ao que a Palavra de Deus diz para que possamos analisar da forma correta se alguém de fato pecou contra nós ou não.

Ele realmente pecou contra mim. E agora?

A parábola do credor incompassivo afirma que o reino dos seus é semelhante a um rei que resolveu ajustar suas contas com os seus servos, contudo foi trazido um servo que não tinha como pagar a sua dívida e o meio estabelecido pelo rei para que esta dívida fosse paga foi a venda deste servo, de sua mulher, seus filhos e tudo o que possuía. Contudo ele prostrou-se diante do rei implorando por mais tempo para pagar essa dívida, e este teve misericórdia do seu servo e lhe perdoou completamente a dívida. Saindo, porém, da presença do seu rei, o servo encontra um dos seus conservos que lhe deve certa quantia e “agarrando-o, o sufocava” exigindo a dívida. O conservo implorou por mais tempo para pagar a dívida, contudo seu credor de imediato lançou-lhe na prisão até que a dívida fosse paga. Sabendo disso, o rei questiona o seu servo: “Eu te perdoei completamente a dívida porque me compadeci, não deveria você fazer o mesmo e se compadecer do seu conservo?”. Então o rei entregou o servo malvado a homens tidos como cruéis e perversos até que a dívida fosse paga (Mateus 18.25-35).

A “realidade” dessa parábola é evidenciada tanto na sua introdução, quando é afirmado que o reino dos seus é semelhante a narrativa contida nos versículos posteriores, quanto no final, quando Jesus afirma que a consequência atribuída ao servo malvado também será aquela atribuída aos que não perdoam seu irmão.

Um aspecto relevante do texto que deve ser ressaltado também são os valores das dívidas do servo e do seu conservo. O servo deve ao rei dez mil talentos, enquanto o conservo deve a este cem denários. Eu não conheço a economia da época, mas os valores das dívidas são bem discrepantes. Então, a despeito de todos os sentimentos que surgem como consequência das ações de um irmão contra nós (mágoa, raiva, tristeza, decepção, angústia), é necessário dizer que todos os pecados que nosso irmão cometeu ou que possa cometer contra nós nem chegam perto da nossa multidão de pecados que cometemos contra Deus, aquele que é santíssimo, puro de olhos e que odeia o pecado. Este Deus que abomina o pecado teve misericórdia de nós e perdoou cada um dos nossos terríveis pecados, então, assim como Ele se compadeceu de nós, não deveríamos igualmente perdoar os pecados que foram cometidos contra nós?

Ok. Eu entendi que devo perdoar …mas…como eu faço isso?

O amor é o começo de tudo, ele é o dom supremo, é aquele que não se ressente do mal, que tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta e que jamais acaba. Ele é um dom Deus, é um fruto do espírito (Gálatas 5), ou seja, é consequência da graça de Deus e da nossa nova natureza a qual nos foi concedida por meio de Cristo. Nós, filhos de Deus e novas criaturas, fomos habilitados para a prática do perdão.

Deus é a fonte do amor supremo, então é a Ele que devemos buscar. Devemos nos prostrar diante Dele e pedir que nos torne cada vez mais parecidos com Cristo, e que nos fortaleça para que mortifiquemos nossa carne, que abandonemos nossos desejos e vontades egoístas e que possamos glorifica-lo por meio da nossa vida perdoando as ofensas contra nós cometidas. Ele vai nos habilitar dando-nos as ferramentas necessárias, porém vai exigir de nós esforço. Não é fácil, mas devemos manifestar nosso amor a Deus e à pessoa por meio da nossa obediência à Palavra, sendo pacientes e bondosos, vencendo o mal com o bem.

Eu perdoei. E depois?

Bom, depois que você já perdoou prepare-se para perdoar mais setenta vezes sete. Jesus diz isso a Pedro não com o objetivo de estipular um número definido para o perdão, mas para defini-lo como uma prática constante.

Além de perdoar, não podemos esquecer que não só os outros estão sujeitos a falhas e tropeços, mas nós também estamos e por vezes vamos precisar do perdão dos nossos irmãos e da sua paciência para nos ajudar a cada dia mais tomarmos a forma de Cristo, assim como cabe a nós ajuda-los para que possamos progredir cada vez mais, unidos, e viver de modo digno do evangelho de Cristo.

Giulia Almeida • inconformados.blog.br
CC BY-NC-ND 3.0 • This work is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil License
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