Procuram-se Membros de Igreja que Conspiram para o Bem

Greg Gilbert

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Se você é como a maioria dos pastores, a última coisa que deseja ouvir é de membros os quais, ao que tudo indica, estão continuamente conspirando contra a unidade no corpo da igreja. Em qualquer comissão em que tenham assento, em qualquer classe que ensinem, em qualquer amizade que possuam, eles parecem provocar os outros ao descontentamento, às queixas ou até às contendas.

Você talvez se surpreenda ao aprender que o livro de Hebreus convoca os membros de igreja a continuamente conspirarem e provocarem no corpo da igreja. Ele os chama a conspirarem e provocarem para o bem!

Em nossa igreja em Louisville, Kentucky, os demais presbíteros e eu frequentemente lembramos nossa congregação da instrução de Hebreus. Eis aqui o tipo de coisa que dizemos a ela.

Um Pouco de Contexto

A maior parte do livro de Hebreus é um exaltado tratado teológico sobre a pessoa e a obra de Jesus Cristo. Ao longo de nove capítulos, o autor do livro considera atentamente o sistema sacrificial e sacerdotal do Antigo Testamento e defende que ele fora inteiramente cumprido na vida e morte de Jesus. Com o décimo capítulo, porém, o autor deliberadamente aplica tudo isso à vida de seus leitores. “À luz de todas essas coisas”, ele lhes diz, “vocês devem viver de uma certa maneira”.

Um Pouco de Exegese

Hebreus 10.19-25 repousa no coração dessa exortação. Nesses versículos, o autor chama seus leitores a fazer três coisas: primeiro, eles devem se aproximar de Deus. Uma vez que Jesus conquistou para eles acesso ao trono de Deus, por sua morte na cruz, eles hão de adorar a Deus não com temor e tremor, mas com total e alegre confiança. Segundo, ele os chama a conservar a sua confissão; não a retroceder e ser destruídos, mas a crer, a ter fé, e, por esses meios, a salvar a sua alma. Com essas duas exortações, o autor chama esses cristãos a olhar atentamente para seu coração, mente e alma. Mas há também uma terceira exortação aqui, na qual ele os chama a olhar para fora de si mesmos e focar a sua atenção em seus irmãos e irmãs em Cristo – na igreja.

O autor escreve nos versos 24 e 25: “Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima”.

Por causa de tudo o que Jesus fez, e por causa de tudo o que ele é, os cristãos devem estimular uns aos outros ao amor e às boas obras. Mas como devemos fazer isso? Por que meios podem os cristãos impelir uns aos outros  à bondade e à santidade? O próprio texto oferece dois caminhos – não deixando de congregar e fazendo admoestações uns aos outros.

Agora, essa frase – “não deixemos de congregar-nos” – é talvez a afirmação bíblica mais clara da obrigação do cristão de frequentar uma igreja local. Se somos parte do corpo de Cristo, então devemos, de fato estamos obrigados a, nos unir e compartilhar nossa vida com um corpo local de crentes. Esse verso dificilmente poderia ser mais direto. Mas observe que o mandamento de não negligenciar a congregação não sustenta a si mesmo. É, na verdade, uma cláusula dependente, ancorada na cláusula principal do versículo. O mandamento de congregar é apresentado como um meio para outro fim. Nós cristãos devemos congregar com o propósito de estimular uns aos outros ao amor e às boas obras.

Frequentar

No mínimo, portanto, devemos dizer que, para todo cristão, frequentar as reuniões da igreja não é opcional. O autor de Hebreus – e portanto o próprio Espírito Santo – ordenaque os cristãos estejam presentes quando os crentes com quem eles congregam se reúnem.

De modo bastante prático, isso significa que nós talvez precisemos reorganizar nossas agendas para encontrar tempo para o ajuntamento dos santos. Compromissos de trabalho podem ter de ser deslocados. Tarefas de casa podem ter de ser feitas em outro momento. Relatórios podem ter de ser preenchidos mais cedo ou mais tarde. A maioria das igrejas se reúne não mais do que duas ou três horas por semana, o que ainda deixa cerca de 145 horas para fazer essas ou outras coisas. De acordo com Hebreus, encorajar e estimular outros cristãos deve estar no topo da lista de prioridades de todo cristão, e isso significa frequentar as reuniões públicas da igreja.

Mas Não Apenas Frequentar

Mas o autor de Hebreus está convocando a mais do que mera frequência. Muitas vezes, os cristãos tratam a frequência na igreja como mais um item de sua lista de “afazeres cristãos”. Eles frequentam um culto de igreja, sentam quieta e anonimamente nos fundos do salão, ouvem o sermão com o coração dividido, escapam durante o hino final sem falar com ninguém, e mentalmente riscam o item da semana: “Igreja frequentada. Hebreus 10.25 obedecido”. Mas isso não é de modo algum o que o autor de Hebreus tinha em mente aqui. Ele não diz simplesmente: “Frequente a igreja”. Em vez disso, ele põe a frequência à igreja, muito deliberadamente, no contexto de conhecer, amar e encorajar outros crentes. Ele a põe no contexto de estimular uns aos outros ao amor e às boas obras.

A reunião pública de uma igreja local envolve mais do que indivíduos que se reúnem para ouvir a Palavra de Deus pregada – embora isso esteja certa e crucialmente envolvido. Ela envolve também compartilhar vida com outros crentes que se aliançaram para dar suporte e encorajamento uns aos outros como cristãos. É nas reuniões públicas da igreja que nós oramos uns pelos outros, choramos e nos alegramos uns com os outros, carregamos os fardos e as tristezas uns dos outros, ouvimos a Palavra de Deus juntos, e trabalhamos para aplica-la à vida uns dos outros. Em resumo, a reunião da igreja é o tempo mais importante que os crentes possuem para estimular uns aos outros ao amor e às boas obras.

Conspirar e Provocar

Observe mais duas coisas neste texto. Primeiro, o autor de Hebreus ordena: “Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras”. Ele está nos dizendo, em outras palavras, para pensarmos no assunto! Um cristão deve conspirar, planejar, tramar, projetar e inventar como pode estimular seus irmãos e irmãs às boas obras – algo que ele simplesmente não pode fazer a menos que sua vida esteja firmemente entrelaçada com a deles. Como exatamente pode um cristão conspirar e planejar pelo bem de seus companheiros crentes, se ele não os conhecer?

Segundo, observe a palavra “estimular”, que algumas versões traduzem por “provocar”. A presença de um indivíduo no corpo deveria ter um efeito visível nos outros, um efeito estimulante ou provocativo: amor e boas obras começam a abundar nas vidas das pessoas ao seu redor!

Em resumo, pastor, nós queremos encorajar os membros de nossa igreja a conspirar e provocar – para o bem!

Uma Ilustração

No último verão, eu comecei um massivo projeto de assentar ladrilhos de ardósia em minha varanda de entrada e na calçada. Ali próximo, sob uma árvore, pus um cooler azul cheio de água, que eu usava para lavar os ladrilhos sujos depois de cortá-los no tamanho correto. Após algum tempo, eu percebi que toda a lama que eu estava lavando dos ladrilhos ficava depositada no fundo do cooler, deixando água limpa no topo e uma densa camada de lama no fundo. Agora, se eu quisesse agitar aquela lama do fundo docooler e fazê-la explodir com vida naquela água, como eu faria isso? Levantando-me e sacolejando o cooler com meu joelho? Isso não funcionaria. A água poderia ondular, mas a lama permaneceria firme no fundo. Não, se eu de fato quisesse agitar aquela lama para o topo, eu teria de pôr a mão na água. Eu teria de me envolver com a água, agitando a lama de modo direto e proposital.

Não é uma analogia perfeita, certamente, mas a igreja é um pouco desse jeito. Nenhuma verdadeira igreja de Jesus Cristo deveria ser o tipo de lugar onde os crentes simplesmente se reúnem uma vez por semana, esbarram um no outro, e então vão cuidar de seus negócios. Que vergonha é quando os cristãos, para não mencionar os não cristãos, pensam que isso é tudo o que as reuniões da igreja significam! Eu não consigo pensar em muitas coisas que tornariam uma igreja mais sem vida ou menos digna de zelo.

A exortação para “não deixar de congregar” não é entediante e sem vida desse modo. Ela não chama os cristãos a sentar passivamente num banco. Ao contrário, ela os chama a uma vida crepitante de energia. Ela os chama a viver juntamente com outros cristãos – a amá-los, encorajá-los, estimulá-los às boas obras e, talvez mais importante, apontar-lhes sempre o Dia quando o seu Senhor há de retornar. “Ir à igreja” não resolverá. Apenas “sendo a igreja” nós podemos cumprir o que Cristo planeja para nós como seu povo.

Greg Gilbert • fiel.com.br
CC BY-NC-ND 3.0 • This work is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil License
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