Entre a insensibilidade e a reverência

Jônatas da Cunha Ferreira

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Temos falado como o relacionamento com Deus não se restringe à experiência religiosa. Pelo contrário, a fé cristã é vivida além das paredes dos templos, nas rotinas corriqueiras: comer, dormir, viajar, casar-se, ter filhos, trabalhar pelo pão diário.

O sono, por exemplo, é tão essencial para a vida que passamos cerca de um terço dela dormindo. Entretanto, muita gente vive sob a pressão produtiva e reduz o tempo de sono para conseguir algumas horas extras de trabalho. Não conseguem dormir, pensando nas contas, nos filhos, nas tarefas inacabadas, no futuro. E dormir não é apenas uma necessidade, mas uma expressão de fé, afinal, se o Senhor não edificar a casa e não guardar a cidade, inútil será levantar de madrugada e repousar tarde para comer o pão pelo qual penosamente trabalhamos. Aos seus amados ele o dá enquanto dormem.

Mas, como dormir quando se está estressado como Jacó? (Gn 28.10-22) Ele estava fugindo, carregando a culpa pela bênção roubada e o ódio de seu irmão. Depois de quase três dias de viagem, Jacó se entrega ao cansaço. Ele silencia sozinho e adormece em campo aberto, ao relento, tendo apenas uma pedra como travesseiro. É nesse momento que Deus se revela e que Jacó começa a ser transformado. Na quietude do sono, ele se encontra consigo mesmo e com Deus e desperta da sua insensibilidade para um temor reverente ao Senhor: Despertado Jacó do seu sono, disse: Na verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia. E, temendo, disse: Quão temível é este lugar! (v.16).

É interessante como no sono — ou na falta dele — vemos um retrato da nossa fé entre a insensibilidade e o temor reverente à voz do Deus Soberano. Ele diz: Eis que estou contigo, mas perdemos o sono pensando estar sozinhos. Ele diz: Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna e perdemos o sono por dinheiro e bens. Ele diz: não vos inquieteis com o dia de amanhã e, ansiosos, não dormimos. Ele diz: os teus pecados estão perdoados e viramos a noite corroídos pela culpa.

A fé cristã madura, sensível à voz de Deus, é aquela do salmista quando diz: Em paz me deito e logo pego no sono, porque, Senhor, só tu me fazes repousar seguro (Sl 4.8). Tal maturidade e sensibilidade, cujo retrato é visto na maneira como descansamos sobre o travesseiro, é produto de uma prática devocional constante. Como testemunhou o Rev. Augustus Nicodemus Lopes: Depois de 35 anos de conversão a Jesus Cristo continuo percebendo a diferença que faz no dia a dia tirar um tempo para ler a Bíblia e orar. Quando faço isto diariamente, dias a fio, a minha disposição mental se torna mais espiritual, as verdades em que creio ficam mais nítidas e orar fica mais natural e desejável. Afinal, “fé vem pelo ouvir e ouvir a Palavra de Deus”.

Jônatas da Cunha Ferreira • iptubarao.wordpress.com
CC BY-NC-ND 3.0 • This work is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil License
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