Entre a Comunhão e o Engano

Jônatas da Cunha Ferreira

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Como já ponderamos aqui e aqui, a fé cristã transformadora acontece em meio às coisas comuns e simples da vida como comer, dormir, viajar, casar-se, ter filhos e trabalhar pelo pão diário. E temos visto nas últimas reflexões, especialmente sobre a vida de Esaú e Jacó, como a fé cristã é vivida de maneira prática nas refeições. A refeição pode ser expressão de uma fé sadia ou de um coração que precisa urgentemente de mudanças (Gn 25.27-34; 27.1-41).

Comer é uma expressão da fé cristã prática, pois na refeição experimentamos uma linha tênue entre a celebração da bênção de Deus e a ingratidão e entre a confiança na providencia de Deus e a confiança soberba na própria força. Esaú, governado por seu estômago, não soube celebrar a bênção de Deus e vendeu seu direito de primogenitura. Jacó não confiou na providência de Deus, explorando a fome do seu irmão para garantir aquilo que desejava.

Mas não é apenas isso. Nas refeições também experimentamos um linha tênue entre a celebração da comunhão e a promoção da manipulação e o engano (Gn 27.1-41). Aquele cabrito preparado ao modo de Isaque revelava toda tensão emocional que existia naquela família: Um pai distante, uma mãe superprotetora e um irmão dominador. Jacó cresceu ao lado de um pai emocionalmente distante que elegera seu irmão como filho favorito. Ele é o caso clássico de um homem que cresceu com um pai ausente ou emocionalmente distante e que luta para obter a bênção do pai. Naquele cabrito preparado por sua mãe para enganar Isaque, Jacó trocou a celebração da comunhão da família pelo engano e manipulação a fim de obter a liderança da família — objeto de seu grande desejo.

Não é muito diferente nessa sociedade fast-food — em que a comida é calculada para ficar pronta em 50 segundos — comer se reduziu a reabastecimento. Encontramos poucas famílias que cultivam o hábito de se estar juntos à mesa para a refeição. Ou, se estão juntos, não conversam porque estão conectados à televisão ou a internet. Preferem para postar nas redes sociais fotos da comida a gastar tempo em conversa sincera.

Comer deve ser uma experiência de comunhão e não de manipulação. Comer é mais que a própria comida. É ato relacional e espiritual. Não é a toa que relacionamentos profundos são cultivados em longas conversas ao redor de uma mesa.

Assim são as nossas refeições: reveladoras. A maneira como comemos traz luz sobre a fé que cultivamos em nosso coração. Como expressou Schmemann: Uma refeição ainda é um rito – o último “sacramento natural” da família e da amizade, da vida que é mais que “comer” e “beber”. Comer ainda é algo mais que manter as funções fisiológicas. As pessoas podem não entender o que é esse “algo mais”, porém desejam celebrá-lo.

Jônatas da Cunha Ferreira • iptubarao.wordpress.com
CC BY-NC-ND 3.0 • This work is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil License
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