Uma igreja para a cidade

Jorge Henrique Barro

O que é ser uma igreja para a cidade:

“Um centro de hospitalidade”. Um espaço onde todos são bem recebidos, inclusive o estrangeiro. Um local de boas vindas, onde as pessoas se sentem em casa. Isso não significa simplesmente ter uma boa equipe sorridente de recepção, mas ser uma comunidade do acolhimento, que demonstra atenção para com as pessoas; ser um lugar onde o solitário encontra amizade, e o confuso, direção.

“Um centro de refúgio e abrigo” onde os de fora — estrangeiros, pobres, fracos, perseguidos e não-amados — encontram um santuário. Essa igreja é refúgio e abrigo para os que estão passando por situações de crise, sentem-se solitários e sem amizades sólidas, confusos e sem quem os ouça, famintos e sedentos para achar o verdadeiro Deus.
Como parte de um exercício prático de uma classe de missão urbana do Fuller Theological Seminary, na Califórnia, fomos visitar uma paróquia católica no centro de Los Angeles. Trata-se de uma comunidade urbana, especialmente entre as gangs. O sacerdote que nos recebeu contou-nos a seguinte história:

Um ex-paroquiano, em visita à igreja, lhe disse que aquele lugar não parecia mais uma igreja: “Antes este lugar era organizado, limpo; agora é uma baderna, um entra-e-sai de gente. Isto mais parece uma rodoviária que uma igreja”. O padre chamou alguns daqueles miseráveis que ali estavam e lhes perguntou o que significava aquele lugar para ele: “Ah padre, este lugar é tudo para mim. Eu estava morrendo debaixo da ponte; quando me trouxeram para cá, eu encontrei uma família, a família que nunca tive”. A moça, que falou a seguir, contou como aquele lugar a salvou, pois estava grávida, correndo risco de vida, e ali encontrou refúgio e abrigo para poder se cuidar e depois dar a luz à criança que estava em seu ventre. Ao final da conversa, o padre declarou ao visitante: “Para todas estas pessoas que estão aqui, esta é a única igreja e família que conhecem e possuem”.

Essa paróquia havia se tornado um centro de hospitalidade, de refúgio e abrigo, uma cidade santa para aqueles que haviam perdido a esperança de viver. Muitas pessoas vêm para a igreja como fruto de métodos de crescimento elaborados por ela e não como resultado das ações misericordiosas do seu povo. Quem foi alcançado como fruto da misericórdia não pode oferecer outra coisa, senão a própria misericórdia.

“Um centro de misericórdia, esperança e vida”. Se existe uma comunidade no mundo que deve revelar o máximo valor da vida esta é a igreja. Nossos legalismos e tradicionalismos só existem porque a vida não é prioridade para nós. Quando ela está acima de tudo e ocupa o primeiro lugar nas nossas agendas, é possível colher espigas no sábado (Lc 6.1), curar um homem de mão atrofiada no mesmo sábado (Lc 6.6), e curar — também no sábado — a mulher encurvada há cerca de 20 anos (Lc 13.11). A vida está em primeiro lugar, mesmo que o líder fique “indignado porque Jesus havia curado no sábado”. O dirigente da sinagoga disse ao povo: “Há seis dias em que se deve trabalhar. Venham para ser curados nesses dias, e não no sábado” (Lc 13.14). É triste ter que chegar a esta conclusão por causa das tradições: “Hoje é sábado, não lhe é permitido carregar a maca” (Jo 5.10).

É necessário aceitar o convite de Jesus aos que eram contrários à sua participação com os pecadores: “Vão aprender o que significa isto: ‘desejo misericórdia, não sacrifícios’. Pois eu não vim chamar justos, mas pecadores” (Mt 9.13; 12.7). É possível liderar a igreja de Deus sem misericórdia. Jesus disse: “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas” (Mt 23.23).

“Um centro sinalizador do Reino”. Assim como o farol está para o mar, a igreja está para a cidade. A igreja é convocada para ser “um sinal de contradição”, assim como foi Jesus (Lc 2.34). Isto significa desafiar as normas e valores deste mundo, como demonstrado no Sermão do Monte. É preciso ir contra as atitudes desumanas e apontar os valores do reino de Deus e de sua justiça; ser uma igreja inclusiva e aberta, unida na diversidade, uma comunidade de compaixão. A única igreja que realmente brilha aos olhos de Deus é aquela que fielmente cumpre sua missão onde ele a coloca. A que não cumpre também brilha: em seu nome colocado no letreiro.

Assim como “não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte” (Mt 5.14), não se pode esconder uma igreja missionária, pois ela brilhará “diante dos homens [e mulheres], para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus” (Mt 5.16). Esta igreja é como um farol que sinaliza o caminho. Ela é um “centro de hospitalidade”, “refúgio e abrigo”, “misericórdia”, “esperança”, “sinal para indicar o caminho para o reino de Deus”.

Jorge Henrique Barro • ultimato.com.br
CC BY-NC-ND 3.0 • This work is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil License
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