O mais importante das coisas mais importantes

Jônatas da Cunha Ferreira

Algo é realmente preocupante no desenvolvimento de uma espiritualidade cristã sadia na cultura moderna: o tempo. Administrar bem o tempo, dividindo-o entre família, trabalho e lazer, em um contexto cada vez mais exigente e esgotante, passa ser um desafio dos mais difíceis.

É aqui que surge o problema. Quando tem de se estabelecer as prioridades da agenda de compromissos e atividades diárias, a tendência é colocar no topo aquilo que tem efeito ou prazer imediato, empurrando para o fim, para o caso de sobrar um tempinho – que, de fato, nunca sobra – tudo que é de longo prazo e que precisa de um investimento maior. Com isso, relega-se o tempo saudável com os filhos e com o cônjuge e o cultivo de amizades profundas, isso sem falar de tudo que é de natureza eterna e espiritual (essas ficam no último lugar das últimas coisas).

Isso revela a natureza de nossas preocupações. Na verdade, fazer esse tipo de opção é demonstrar que se está mais preocupado – e ocupado – com o próprio umbigo que com qualquer outra coisa. É sofrer da síndrome de Narciso, o herói da mitologia grega que morreu afogado por estar apaixonado por sua imagem refletida na água. E, quando estamos ocupados demais, criamos para nós mesmos, quase sem notar, dificuldades sérias – que por pouco são intransponíveis – para perceber e ouvir o outro, que muitas vezes é o próprio filho ou cônjuge.

E se temos dificuldades de perceber e ouvir o outro, a quem nós vemos, mesmo que seja eventualmente, o que dizer então de perceber, ouvir e aprofundar-se no relacionamento com Deus, a quem não vemos?

Com Ele o negócio é ainda mais complicado. Não há investimento sólido e constante para um relacionamento profundo e íntimo (aliás, a constância é necessária em qualquer relacionamento). Não há investimento devocional individual, nem comunitário. Não há participação no estudo da Bíblia, nas orações e na comunhão. O envolvimento – que é o investimento – é o menor possível.

Não há preocupação – e ocupação real – com a vontade revelada de Deus que define o nosso dever e o padrão de nossa responsabilidade. Não há um desejo ardente e coerente de conhecer a Deus e agradá-Lo em cada escolha ou prioridade definida na vida. Deixa-se de lado a razão, primária e básica, pela qual se deve seguir certo caminho ou fazer certa escolha. Na verdade, agradar a Deus tornou-se uma idéia distante e vaga, diluída na doutrina moderna de satisfação pessoal instantânea.

Por que não desejamos agradar a Deus? Por que vivemos tão pouco preocupados com Sua vontade? Por que não investimos de forma constante em um relacionamento com Ele? Alguém certamente dirá: “É culpa da correria do dia-a-dia”. Ou ainda: “É porque não tenho tempo”. E terá pecado duas vezes. A primeira pela negligência do relacionamento com Deus e de sua vontade. A segunda por mentir. Na verdade, temos tempo e nunca estamos muito cansados para o que consideramos realmente importante.

O contraste de tudo isso é que ao mesmo tempo em que banimos o Deus trino e a sua Palavra para o último lugar das últimas coisas de nossa vida, Ele mesmo se ocupa conosco em amor eterno, porquanto diz:

Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho. Quanto mais eu os chamava, tanto mais se iam da minha presença; sacrificavam a baalins e queimavam incenso às imagens de escultura. Todavia, eu ensinei a andar a Efraim; tomei-os nos meus braços, mas não atinaram que eu os curava. Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor; fui para eles como quem alivia o jugo de sobre as suas queixadas e me inclinei para dar-lhes de comer (Oséias 11.1-4).

Sendo imenso em poder e glória, enquanto somos apenas como um sopro, cujos dias são como a sombra que passa, Ele nos trata com amor, como se cada um de nós individualmente fosse a coisa mais importante das coisas mais importantes que existem, a ponto de esvaziar-se de sua glória para sofrer e morrer como homem por causa de nossos pecados. E quanto a nós, tendo tal grandeza, suficiência e glória diante dos nossos olhos, preferimos o vil, o corruptível e passageiro.

Autor: Jônatas da Cunha Ferreira
Site: iptubarao.wordpress.com
Permissões: CC BY-NC-ND 3.0 • Você tem a liberdade de compartilhar (copiar, distribuir e transmitir a obra), desde que adicione as informações de autoria, não altere o conteúdo original e não utilize para fins comerciais.
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