Entre percevejos e mediocridades

Fábio Ramos de Carvalho

Escapei aos tigres, alimentei os percevejos, fui devorado pelas mediocridades. (Bertold Brecht)

Por que o ser humano é quase sempre tão complicado? Por que é tão fácil observarmos ao redor tantas contradições e intolerâncias? E o extremo egoísmo expresso no difícil convívio social? Por que é tão comum, também, vermos reações doentias e imprevisíveis daqueles que nos rodeiam, que nos são próximos?

Mas talvez a pior e mais surpreendente perplexidade seja quando nos vemos, exatamente, com as mesmas reações doentias que percebemos nos outros! Tantos porquês existem em virtude de serem comportamentos contrários ao que se espera de uma pessoa cristã. Essa ambigüidade é característica iminente do ser humano e, parafraseando o dramaturgo alemão Bertold Brecht:

Escapamos dos tigres: experimentamos um verdadeiro relacionamento com Deus, fomos libertos da opressão e de cadeias espirituais, e somos diariamente salvos da morte…

Alimentamos os percevejos: cultivamos a autocomiseração, o rancor guardado a sete chaves, a recusa em vivenciar um perdão genuíno…

Somos devorados pelas mediocridades: Aí ficamos doentes, murmuradores, sempre indispostos, cabisbaixos, revoltosos, impedindo que do nosso interior fluam rios de água viva.

Mas o pior disso tudo é que não assumimos nossos percevejos e mediocridades e, para disfarçá-los, nos valemos malignamente de verdadeiros eufemismos comportamentais. O apóstolo Paulo adverte em sua carta aos Colossenses (2:23), falando de coisas que têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e falsa humildade, e rigor ascético todavia, não têm valor algum contra a sensualidade.

Assim, alegamos, por exemplo, que uma pessoa foi indelicada para conosco quando, na verdade, deveríamos assumir que ela nos falou algo que não nos agradou, mas que precisamos ouvir.

Reclamamos muitas vezes de nossas lideranças e comunidades cristãs para não assumirmos a nossa irresponsabilidade, a nossa passividade, a nossa ausência. Outras vezes, por causa de não confessas dificuldades no relacionamento com alguns irmãos (dificuldades essas que precisam ser superadas), preferimos “pular fora” e buscar outro grupo ou, na maioria das vezes, ficarmos em casa vendo televisão e alimentando percevejos.

E, além disso, nos posicionamos como vítimas, dizemos que somos injustiçados e chegamos ao cúmulo de questionar o próprio Deus quando, na verdade, deveríamos suportar pacientemente as tribulações (IITim 4:5), suportar uns aos outros em amor (Ef 4:2), perdoar para sermos perdoados (Lc 6:37) e exercitar a nossa fé para que produza a boa obra e não seja morta.

E quando a orientação bíblica nos exorta a suportar e perseverar, não significa ter de se submeter e compactuar com situações contraditórias à própria Palavra de Deus e ao bom desenvolvimento da fé cristã. Antes se refere à capacidade nos dada por Deus para enfrentar e resolver os conflitos diários aos qual todo agrupamento humano (mesmo que sejam apenas dois) está sujeito.

Se não observarmos e cumprirmos as orientações divinas, acabamos por secularizar os relacionamentos cristãos, repetindo atitudes da sociedade incrédula, marcada pelas fáceis separações, iras, inimizades, porfias e tudo aquilo que o apóstolo Paulo identifica como obras da carne (Gl 5:17-20). E o mesmo Paulo, experiente no difícil convívio humano e cheio de experiências com as traições dos irmãos, com as injúrias e humilhações sofridas, mas realmente cheio do amor e sabedoria de Deus, pôde discernir essa contradição humana e a resposta para se mudar esse quadro: “Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impurezas, paixão lascívia, desejo maligno e a avareza que é idolatria” (Col 3:5). E disse ainda: “Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade. Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós. Acima de tudo isso, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição” (Col 3:12-14).

Neste texto extraordinário temos o padrão da verdadeira conduta de um cristão; e quando comparamos isso com a realidade, temos as respostas para vários dos nossos porquês. E mais que isso, nós entendemos também quem somos!

Compreendemos as razões de tantas facções, divisões, amarguras e decepções. Percebemos porque muitas pessoas vivem reclamando, criticando o tempo todo, incapazes de apresentar um auxílio prático ou uma palavra de ânimo, comportando-se como histéricos. Porém, se tenho a coragem de enxergar e arrancar minhas próprias máscaras, e me livrar do eufemismo hipócrita, o cristianismo deixa de ser simples retórica e passa a ser um autêntico estilo de vida.

É isso aí. Já está mais do que na hora de sairmos desse ciclo falido de vida, pararmos de choramingar pelos cantos, reclamando de tudo e de todos, e assumirmos a verdadeira postura de um discípulo de Jesus. E lembremo-nos: não estamos aprisionados a nenhum “movimento urbano” ou qualquer rótulo social ou radical. Somos cristãos e queremos viver cada vez mais a dimensão inimaginável que isso implica.

“Habite ricamente em vós a Palavra de Cristo, instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda sabedoria, louvando a Deus, com salmos e cânticos espirituais, com gratidão em vossos corações” (Col 3:16)

Autor: Fábio Ramos de Carvalho
Permissões: CC BY-NC-ND 3.0 • Você tem a liberdade de compartilhar (copiar, distribuir e transmitir a obra), desde que adicione as informações de autoria, não altere o conteúdo original e não utilize para fins comerciais.
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