Pascal: O cristianismo tem algo de espantoso

Ultimato

Enquanto um monge (Lucílio Vanini) abandona o cristianismo, perde a fé e se envolve com bruxaria, um matemático (Pascal) faz o caminho inverso e torna-se um dos leigos mais apaixonados pelo cristianismo:

Mil vezes o cristianismo esteve na iminência de ser destruído. Em todas as vezes que corria esse perigo, Deus o levantava com golpes extraordinários de seu poder. É assombroso que assim seja e que o cristianismo se mantenha sem se dobrar ou se curvar sob à vontade dos tiranos.

A fé cristã parece estabelecer duas coisas: a corrupção da natureza humana e a redenção operada por Jesus Cristo.

Digam o que quiserem, mas é preciso confessar que a religião cristã tem algo de espantoso. Há prazer em estarmos em um barco abatido pela tempestade quando temos a certeza de que ele não naufragará. As perseguições contra a igreja são assim. O cristianismo é estranho. Ordena ao homem que reconheça o quanto é vil e abominável e, ao mesmo tempo, gera nele o desejo de ser semelhante a Deus. Salvo o cristianismo, nenhuma religião ensina que o homem nasce em pecado. Nenhuma escola filosófica o afirma. Nenhuma, pois, diz a verdade.

Vejo multidões de religiões em muitos lugares do mundo e em todos os tempos. Mas elas não têm nem moral que me pudesse agradar nem provas capazes de me convencer. Toda religião que não reconhecer agora Jesus Cristo é notoriamente falsa e os milagres que ela faz não podem servir para nada. O cristianismo consiste propriamente no mistério do Redentor, que reuniu em si as duas naturezas, a divina e a humana, e tirou os homens da corrupção dos pecados para reconciliá-los com Deus em sua pessoa divina.

A religião cristã é sábia e louca. Sábia não só por ser a que mais sabe, mas também por ser a mais fundada em milagres, profecias etc. Louca, porque não é isso tudo que faz com que pertençamos a ela. O que nos faz crer é a cruz.

A verdadeira religião ensina nossos deveres e nossa incapacidade (orgulho e concupiscência) e fornece os remédios (humilhação e mortificação).

Ninguém é feliz, virtuoso ou amável como os verdadeiros cristãos. Ama-se porque se é membro do corpo do qual Jesus Cristo é o cabeça. Ama-se Jesus Cristo porque é o cabeça do corpo do que se é membro.

Autor: Revista Ultimato — Edição 330
Fonte: “Mente em chamas — fé para o cético e indiferente”, Editora Palavra, p. 323-331.
Site: ultimato.com.br | CC BY-NC-ND 3.0
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