Presciência e eternidade

Rubem Amorese

Leio no devocionário Refeições Diárias com Jesus (27 de janeiro) que Deus, ciente de que eu faria mau uso da liberdade, “providenciou um meio de recuperar-me muito antes da fundação do mundo”. E então penso: que providência fantástica!

Percebo um compreensível cuidado do autor ao falar de “presciência”. Ele harmoniza sua linguagem com a dos autores bíblicos para não entrar, desnecessariamente, em terreno polêmico.

Entretanto, gostaria de me inspirar nessa bela devocional para ousar, por minha conta e risco, uma ampliação da ideia de “presciência”, tradicionalmente compreendida como “antevisão” (Rm 8.29-30). É como se Deus olhasse por uma luneta temporal: à distância, antes da fundação do mundo, ele olha para o futuro e percebe que os homens fariam mau uso da sua liberdade; e desde então, concebe o plano de salvação. Sem dúvida, uma concepção bíblica.

A “presciência” de Deus, para mim, está associada ao conceito de “eternidade”. Esta, entendida como “todo o tempo”, em vez de um “longo tempo”. Acompanhe-me, por favor.

Repare que os verbos que falam de tempo, nas Escrituras, estão sempre no pretérito. Mesmo quando se referem ao futuro. “Eis que tudo era muito bom”. O Apocalipse é todo escrito no tempo passado. Eu diria no “pretérito profético” (invenção minha). A razão disso é que Deus “estava” presente em fatos que, para nós, prisioneiros do tempo (kronos), são futuros; mas para Deus, que habita o “kairos”, a eternidade, são presentes.

Sendo viável essa proposta, Deus não apenas olhou para o futuro; ele também fez-se presente em todos os fatos da história: passados, presentes e futuros.

Imagine-se redigindo o livro de Gênesis. Que tempo de verbo você usaria para o descanso do sétimo dia? E no Apocalipse, que tempo usaria para falar da descida da Nova Jerusalém? Sim, passado. Porém, como João “viu” esses últimos acontecimentos? Ele foi transportado por Deus às cenas, para presenciá-las: “Achei-me em espírito, no dia do Senhor” (Ap 1.10). Curioso: “presenciar” é estar “presente”. Mesmo no futuro.

Creio que Deus “sabia” porque tudo “presenciou”. Entendo, assim, que ele me elegeu, antes da fundação do mundo, porque esteve presente em todos os meus dias e viu as respostas que dei ao seu Filho, mediante o seu Espírito. Com efeito, ele não somente tinha ciência de que eu faria mau uso da liberdade, como presenciou cada vez que isso aconteceu. Porém, presenciou também (e participou de) meus desesperados gestos de contrição, em busca de seu perdão. E, por sua graça, lançou meus pecados sobre o Cordeiro, eternamente imolado.

É assim que eu compreendo (e, pela fé, me alegro com) a minha eleição. Penso que Deus, que “de antemão conheceu” todos os meus dias, “estava comigo” na hora da partida. Vejo que ali, diante do meu corpo, naquele momento sagrado em que kronos e “kairos” se encontram (At 7.55-56), ele sacrificou seu Filho por mim. Diante dele, estávamos morrendo juntos.

Nesse momento extremo, Jesus, “presente”, poderia ter-me dito: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso”. E assim se fez (digo pela fé). E houve tarde e manhã, meu grande dia.

Autor: Rubem Amorese
Site: ultimato.com.br
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