Indiferença com a justiça

Jônatas da Cunha Ferreira

Há uma música de Gladir Cabral, chamada “Casa Grande” que narra duas realidades opostas: liberdade e escravidão. A canção celebra a esperança da liberdade que vem do Redentor e que alcança todas as dimensões da humanidade, denunciando a injustiça que ainda existe. É uma poesia que certamente ilustra um momento da história de Israel, quando Amós era profeta. Naquele tempo, Israel havia se desviado em dois pontos: teologia e ética. Eles mudaram a doutrina e corromperam a ética. Tornaram-se superficiais com Deus, confiando em ritos e formalidades exteriores. E perderam valores morais, escravizando seus irmãos, amando a violência, a opressão, a corrupção e a injustiça.

Contra isso, Amós fala duramente da parte de Deus, advertindo o povo por meio de “ais” (Amós 5.18 – 6.14). O profeta chama ao conserto dos relacionamentos com Deus e com o próximo, mostrando o juízo reservado por causa da superficialidade da fé e da indiferença com a justiça. Ele diz: “Ai dos que andam à vontade em Sião e dos que vivem sem receio no monte de Samaria” (6.1). E nesta profecia contra a injustiça, Amós faz-nos ver alguns pontos importantes de reflexão.

Primeiro, ele descreve como a injustiça é fruto da soberba (6.1-2). Israel vivia confiado em seus privilégios espirituais – mas esquecendo-se das responsabilidades (3.1-15) – a mesma mentalidade desenvolvida por alguns cristãos romanos a quem Paulo escreve (Rm 6.1-2). Pensavam que, por ser o povo da aliança, nenhum mal lhes alcançaria. Começaram a “viver sem receio e à vontade” (6.1). Foram por um perigoso sentimento de superioridade espiritual. Confiaram nos ritos da religião e não em Deus. E quando olhamos apenas para os privilégios e negligenciamos nossas responsabilidades, acabamos por nutrir este mesmo sentimento. Isso nos leva a viver de forma descuidada e imprudente, nutrindo uma consciência individualista – do tipo: “Deus me ama; Deus me perdoa; Deus me sustenta” – fazendo de Deus objeto de sua posse. Com isso, negligenciamos a justiça e esquecemo-nos de pensar no que podemos – e devemos – fazer pelo outro.

Além disso, Amós nos mostra como a injustiça é fruto do egoísmo (6.3-6). Ele descreve aqueles de quem está falando: vivem confiados na sua força (6.3); tem fartura e conforto (6.4); tem lazer e muita criatividade inútil (6.5); tem alegria e prazer (6.6a). Entretanto, com tanta fartura de tudo, não se importam com a ruína espiritual, moral e social de seu povo (6.6b). Tornaram-se indiferentes com a justiça. Essa consciência egoísta – do tipo: “eu sou a coisa mais importante do mundo para mim” – é muito comum em nossa cultura ocidental urbana e moderna. Aprendemos a pensar demais em nós mesmos como o centro de todas as coisas. E quando entramos na onda de que o próprio umbigo é o centro do universo, estamos preparando a cena para a queda e para a injustiça.

Por fim, Amós mostra como Deus odeia a injustiça e como trará juízo por causa dela (6.7-14). Os israelitas achavam-se os melhores, os primeiros (6.1). Por isso, Deus anunciou: “Vocês serão os primeiros levados cativos”. E assim foram. Israel foi escravizado da mesma forma que escravizou (6.14). Toda busca por prazer egocêntrico acabou (6.7). Deus abandonou completamente e retirou toda a sua bondade da cidade dos que nela habitavam (6.8b). Não é razoável perverter a justiça e transformá-la em veneno amargo. Ao acabar o tempo da misericórdia, o cálice da ira de Deus transbordará.

Assim, fica a pergunta: O que temos semeando? Prazer egocêntrico ou generosidade? Egoísmo ou vida comunitária? Isolamento e indiferença ou amor ao próximo?

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