O veterinário

Rubem Amorese

Quando pequeno, eu sonhava em ser tratado por um veterinário — um médico muito especial, que consegue descobrir e curar as doenças dos animais sem que eles falem uma só palavra. Que descobre sozinho o que há de errado com o paciente. Ah, que sonho!

Eu tinha consciência da dificuldade em dizer o que havia de errado comigo. Mesmo para meus pais. Sabia apenas que havia coisas doentes e doendo. Porém, como explicá-las? Com que palavras? Como fazer isso se meu vocabulário era o de um menino de oito anos? Era melhor subir numa árvore bem alta e ficar por lá. Ou nadar para minha Ilha Rasa e passar boa parte do dia “longe dos problemas”, em meio às gaivotas. Fuga, claro.

Com o tempo, percebi que as dores iam comigo para a ilha. No entanto, a felicidade da solidão e do calor do sol ajudavam, como hoje ajuda um banho quente.

Meu sonho era um dia ser apresentado a um adulto bondoso, vestido de branco e com um estetoscópio especial. Com olhar profundo, ele se colocaria de joelhos e, com toda a calma, me olharia bondosamente nos olhos. Sem necessidade de palavras, me examinaria o corpo, como os veterinários examinam os animais. Talvez então esse veterinário entrasse em minha alma (uma palavra que só aprendi mais tarde) e seu estetoscópio gentilmente revelaria meus segredos.

Ele me ajudaria a compreender meus próprios sentimentos. Só compreendê-los já seria bom. Porém, se ele pudesse explicá-los para mim, numa linguagem acessível… Para isso, talvez começássemos uma longa e profunda conversa. Ele me ensinaria as palavras certas para nomear e descrever meus problemas. Elas me permitiriam “olhar” para eles e falar deles para meus pais e pessoas de confiança. Eu iniciaria um bom período de convalescença.

De repente, o doutor me daria algumas receitas que abrandariam os desconfortos, sanariam a culpa, os medos e as angústias infantis. Sim, ele me prescreveria remédios para o coração (ou alma).

Teria sido tão bom se eu tivesse sido alvo de um lava-pés infantil, executado por um missionário com chamado, unção e poder de Deus para exercer a delicada “missão emocional” com a qual eu sonhava. Não teria esperado cinquenta anos para conseguir discernir minhas próprias faltas, dores e necessidades, invariavelmente traduzidas por culpa.

Hoje contemplo a encarnação do Verbo e vejo ali a origem dessa “ordem sacerdotal” ‘veterinária’. Descubro que Deus, em Cristo, se ajoelhou e nos olhou bondosamente nos olhos. E nomeou nossos pecados. E nos prescreveu a receita do arrependimento e do perdão.

E nos deixou o modelo para esse ministério que reconcilia os cacos da alma e pacifica os corações internamente conflagrados. Um ministério que nasce do (e no) amor de Deus; que vê e se compadece; que para e, dadivosamente, despende o tempo necessário para compreender, junto com o “paciente”, o que até então só se expressava por silêncios e solidão (Lc 10.33-35).

Restabelecendo o diálogo vital, esse ministério lança luz sobre as almas em trevas. “E nos deu o ministério da reconciliação” — também entre as crianças.

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