Suficiente Graça

Ricardo Barbosa de Sousa

Recentemente, eu e minha esposa reencontramos uma amiga que não víamos há algum tempo. Ela se submetera a uma cirurgia plástica que lhe fez muito bem. Estava alegre, bem-humorada e mais disposta. Por muitos anos ela tinha sido uma pessoa complexada, confusa em seus relacionamentos, amarga e hostil, provavelmente em virtude de sua baixa autoestima. Ficamos felizes ao vê-la bem.

Voltando para casa fiquei pensando no poder que a tecnologia tem para transformar as pessoas. Não pensei no poder de transformar o corpo ou corrigir anomalias, mas no poder de transformar a vida, os relacionamentos, a autoimagem, as emoções e os sentimentos. Os recursos tecnológicos dos quais dispomos hoje têm este poder. São capazes de realizar sonhos impossíveis em outros tempos. E não apenas a cirurgia plástica, mas também muitos outros recursos.

O que aconteceu com nossa amiga foi muito bom, mas fiquei me perguntando: Qual o sentido da graça de Deus numa sociedade tecnológica? Cresce, cada dia mais, a sensação de que aquilo de que necessitamos para a realização pessoal, felicidade ou segurança, não é mais a graça de Deus e seu amor em Cristo Jesus, mas o acesso a meios que garantirão a realização dos nossos sonhos. Parece-me que a linha que separa uma coisa da outra é cada vez mais confusa.

Imagino que para muitos cristãos modernos a graça de Deus funcione como um facilitador, mas ela, em si mesma, já não é o que nos satisfaz. Não é suficiente, não basta. Já não somos capazes de reconhecer, como Paulo, que a graça de Deus é suficiente.

Não pretendo protestar contra as vantagens que a moderna tecnologia oferece, embora muitas possam ser questionadas. Minha intenção é voltar os olhos para a suficiência da graça de Deus e redescobrir seu significado hoje. Afirmar que a graça é suficiente, que ela satisfaz plenamente o ser humano, é reconhecer a suficiência do amor de Deus em Cristo. Quando Davi declara no Salmo 23: “O Senhor é o meu pastor e nada me faltará”, ele está reconhecendo a suficiência da graça de Deus. Certamente muita coisa falta na vida de Davi, mas ele reconhece que, tendo o Senhor como seu pastor, não lhe falta absolutamente nada.

Paulo também reconhece: “Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.11-13).

A questão não é se devemos ou não usar os recursos tecnológicos, mas qual é a fonte de nosso contentamento. Por que já não somos capazes de viver contentes em qualquer circunstância? Por que nossa felicidade depende tanto do dinheiro e do consumo? Por que frequentemente ficamos frustrados por não ter o que os outros têm ou por nos acharmos fisicamente inadequados? Um dos sinais da vida que nasce da fé em Cristo é a alegria que surgem da compreensão do amor gracioso de Jesus.

Tenho certeza de que, no dia em que compreendermos o grande amor com que temos sido amados por Deus, a dádiva do perdão e da reconciliação, nossa participação na ressurreição de Cristo, o significado de termos sido aceitos como filhos amados de Deus, incluídos na amizade eterna da Trindade, gozo e satisfação não mais serão determinados pelos ganhos que o mundo tecnológico oferece, mas pela suficiente graça de Deus. Então poderemos dizer como Paulo: “Pela graça de Deus, sou o que sou”.

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