Entre peregrinos e turistas

Por Ricardo Agreste

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Todos estes viveram pela fé, e morreram sem receber o que tinha sido prometido; viram-no de longe e de longe o saudaram, reconhecendo que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Hebreus 11:13

Recentemente fui apresentado aos escritos e idéias de Zygmunt Bauman, um sociólogo polonês. No entanto, o que a princípio parecia ser apenas mais uma descoberta acadêmica, transformou-se num importante insight para minha compreensão pessoal e pastoral de uma das maiores barreiras impostas pela nossa cultura contemporânea no desenvolvimento de uma espiritualidade biblicamente consistente e sadia.

Dentre as imagens utilizadas por Bauman para representar o homem e a mulher no mundo contemporâneo, chamou-me a atenção a imagem do “turista”. Turista é aquele indivíduo que visita muitos lugares, mas não pertence a nenhum deles. Às vezes fica extasiado com aquilo que vê, às vezes desdenha por ter em sua mente um grande quadro comparativo de lugares e situações. Seja qual for seu sentimento, não pretende se comprometer com nada à sua volta. Ele está apenas de passagem. Sua maior motivação está vinculada à descoberta de novos lugares e à vivência de novas experiências.

Mas, num contraponto com a imagem do turista, Bauman apresenta a imagem do peregrino. O peregrino é uma espécie em extinção em nossa cultura contemporânea. Diferentemente do turista, o peregrino não está envolvido numa aventura de entretenimento, mas numa jornada que tem um início, um meio e um fim. Algo o moveu a iniciar a jornada, e ele percebe que ao longo dela existe uma missão a ser vivenciada e a realidade última se encontra no seu final. Todos estes pontos de referência são de grande importância e, portanto, tratados com grande reverência por parte do peregrino.

Interessante que não poucas vezes na história da espiritualidade cristã os discípulos de Cristo são chamados e comparados a peregrinos. Existe uma estreita relação entre a jornada de um cristão e a experiência de um peregrino. Ambas possuem alguns elementos em comum: a consciência de que a realidade última está ainda por vir, a sensibilidade de que o caminho que trilham pertence ao processo da descoberta e do preparo de si mesmo para esta realidade final e, por fim, o senso de missão para com os lugares e pessoas por onde passam na direção do lugar almejado.

No entanto, observando o auditório de muitas de nossas igrejas na atualidade, não será difícil constatar a presença massiva de pessoas mais parecidas com turistas do que com peregrinos. Eles estão ali para usufruir do espaço, degustar das informações e, principalmente, experimentar de um ambiente ou clima. Tão logo se sintam saciados com o que é oferecido e com a forma como as coisas acontecem, são tomados pelo tédio e passam a ser impulsionados a se moverem na direção de um novo lugar, de novas informações e de novas experiências.

Como conseqüência disso, é triste constatar que algumas de nossas igrejas se tornaram “centro turísticos” com diferentes elementos de fascinação. Em algumas delas a atração principal é o famoso pregador com seu poder de reflexão, em outras é o momento de adoração com seu poder de arrebatamento coletivo e em outras é o seu momento de oração com seu poder de convencer Deus a agir e, até mesmo, de coagi-lo a mudar de idéia em algumas situações. Diferentes atrações emergem em diferentes lugares, mas as citadas são suficientes para exemplificar o problema que temos diante de nós.

O que muitos cristãos não se dão conta é da completa inviabilidade de desenvolvermos uma espiritualidade biblicamente consistente e sadia nesta cultura gerada pelas demandas dos turistas. Por que? Deixe-me apontar apenas algumas razões para incentivá-lo a refletir mais sobre o assunto:

1. Enquanto turistas estão comprometidos apenas com o seu próprio prazer e seu insaciável desejo por entretenimento, peregrinos estão comprometidos com uma jornada na qual possuem uma vocação a ser exercida ao longo do caminho a ser percorrido.

2. Enquanto turistas consomem lugares e atrações como fins em si mesmos, peregrinos estabelecem relacionamentos, caminhando por lugares com reverência e se relacionando com pessoas em cumplicidade, integrando as experiências na construção da maturidade.

3. Enquanto turistas são movidos pela próxima atração, na constante busca por evitar a constância e o tédio, peregrinos são movidos diariamente na mesma direção, tendo na constância uma virtude e na perseverança um elemento imprescindível para o cumprimento de sua jornada.

4. Enquanto turistas estabelecem relacionamentos frágeis e descartáveis, peregrinos descobrem, especialmente na vivência com aqueles com quem caminham lado a lado na jornada, uma grande fonte de consolo, confronto, encorajamento e sabedoria.

5. Enquanto turistas, de forma geral, não possuem qualquer compromisso para com o mundo a sua volta, peregrinos estão numa jornada que os responsabiliza em serem o próximo para aqueles que estão à beira do caminho, bem como “luz” e “sal” na sociedade em que estão inseridos.

Pensando um pouco sobre estas duas imagens fui levado a me questionar. Tenho eu, na minha postura para comigo mesmo, para com a comunidade cristã e para com o mundo no qual estou inserido tido uma postura de “turista” ou de “peregrino”? Qual seria o reflexo em nossas vidas, comunidades e sociedades se, na contra mão da cultura, aceitássemos o desafio de vivermos como peregrinos, rejeitando as demandas que tentam no levar a sermos apenas turistas?

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