A Síndrome do Fã

Jônatas da Cunha Ferreira

No ano passado, assisti a uma reportagem do “Profissão Repórter” que acompanhava a peregrinação de fãs atrás de seus cantores prediletos. Foi interessante notar como estavam dispostos por eles a ponto de permanecer horas em pé numa fila debaixo de chuva, ou de correr, acotovelar-se na multidão e chorar por não conseguir chegar um pouco mais perto (e olha que, sendo eufêmico, a música não era das melhores).

Fico perplexo com essa elevação dos artistas favoritos por parte de seus fãs, como se fossem a quintessência da vida (talvez por isso sejam chamados de ídolos). Para esse tipo de fã, o artista é um personagem mítico que o envolve por alguma razão, mas que no fim das contas é irrelevante para ele. Ao sair dos shows e do êxtase a vida prossegue, nem melhor nem pior que antes, mas exatamente igual.

Porém, como cristão, leva-me à perplexidade ainda maior o fato de que Deus tem se tornado para nós como o artista que admiramos. Achamos sua arte bonita, correta e interessante, mas parece não ir além disso. Foi justamente este comportamento presunçoso que Ezequiel denunciou já em sua época: “Eis que tu és para eles como quem canta canções de amor, que tem voz suave e tange bem; porque ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra” (Ezequiel 33.32).

Será que não temos tomado Deus em nossa vida como tomamos o cantor que gostamos? Admiramos sua música, sua voz, mas ouvimos a mensagem simplesmente como uma bela canção de amor. Não reconhecemos a relevância real de sua Palavra sobre nós. Não porque ela não tenha poder, mas porque não a praticamos.

Em um dos quadros da reportagem, uma fã de Elvis Presley, quando questionada pela jornalista sobre sua paixão, disse sem pudores diante das câmeras: “Eu gosto também do meu marido. Mas eu não viveria sem o Elvis. Eu não consigo imaginar a minha vida sem o Elvis.” – E sem seu marido, tudo bem? – “Tudo bem não, mas eu conseguiria sobreviver. Sem o Elvis, jamais.”

Não é incomum ver quem trata Deus como o “ídolo” e não como o marido que sustenta a esposa e lhe dá amor verdadeiro e sacrificial (Ap 21.9). Falamos a mesma coisa: “Eu não consigo viver sem Deus”. É algo intensamente superficial. Admiramos, mas não lhe damos ouvidos, “adoramos”, mas não sentimos a menor falta dele, nem reconhecemos nele a dependência para viver, respirar e tudo mais. Será que Deus não ocupa para você o espaço da admiração platônica de fã adolescente que “não pode viver sem”, mas que segue sua vida normalmente como se ele não existisse?

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