Obrigado por me ouvir

Rubem Amorese

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Em uma novela da Globo, toda construída sobre mentiras, chamou-me a atenção uma cena em que, após longa conversa com um padre, a pessoa termina dizendo: “obrigado por me ouvir; eu estava precisando botar para fora”. Notei que o padre nunca era atendido em seus conselhos. Era apenas um ouvinte disponível que fazia boas perguntas e ajudava as pessoas. Mas, ficou claro no enredo que, se o tivessem ouvido, o rumo teria sido diferente (e a novela teria terminado precocemente, claro!).

Desde então, passei a olhar o aconselhamento cristão e a prestar mais atenção às minhas conversas, seja como conselheiro, seja como consulente. Constatei que sofremos todos desse subproduto indesejado da cultura psicanalítica em que vivemos. Temos carência de falar. Dizer já não é tão importante. Ouvir, muito menos. Obedecer, de que baú tiraram esse verbo? Embora algo de consolador e terapêutico permaneça nesses monólogos disfarçados de aconselhamento, muitos elementos cristãos estão desaparecendo. Por exemplo, a autoridade.

Nessas conversas, não se busca a sabedoria ou a experiência do conselheiro. Claro que desejamos um interlocutor preparado. Mas o que queremos é uma vaga em sua agenda. Em especial, em seus ouvidos. Desaparece a autoridade das Escrituras. Liquefazem-se princípios, verdades, certezas, tradições. Abrir a Bíblia em um aconselhamento já não é tão fácil. Desaparece a submissão. Submeter-se a um amigo, um irmão? Que também tem problemas? Ouvi dizer que é melhor procurar alguém que não nos conheça bem – traz menos problemas. Falta disposição para ouvir conselhos.

Agora, desejo mudar. Falarei menos e aprenderei mais. Vou romper com a síndrome do divã. Vou me aconselhar como quem deseja ouvir e crescer. Ouvirei conselhos e procurarei acatá-los. Investirei em docilidade. Até no caso de meu conselheiro me reprovar ou me apontar caminhos difíceis. Serei submisso, grato e buscarei a obediência inteligente. Aceitarei autoridade sobre mim e a honrarei; orarei por ela. Serei, novamente, “admoestável”.

Quem sabe, a partir desse exercício, em oração, a Bíblia, que há tanto tempo me tem falado palavras bonitas, volte a me dizer o que preciso ouvir. E ouvindo o que preciso ouvir (e não apenas o que eu mesmo falo), eu me cure desta insidiosa anorexia espiritual. Amém.

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2 comentários em “Obrigado por me ouvir

  1. Que texto inteligente e bem escrito!
    Nos traz mensagem consistente sobre a humildade que esperamos dos outros e ainda não temos. Falo por mim, sinceramente.
    Vanessa.

  2. Rubem Amorese mais uma vez toca nas feridas do nosso tempo, carência de falar, dificuldade para ouvir…. “obedecer? de que baú tiraram esse verbo?”
    Muito bem escrito.
    Bianca

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