Guardei a fé: confiança em tempos difíceis

… guardei a fé. (2Timóteo 4.7)

Paulo está preso. Em poucas semanas ele seria executado e ele sabia disso. Sua cabeça seria cortada por um verdugo romano. Restavam, portanto, poucos dias. E, no seu calabouço escuro de pedras frias e úmidas, apenas uma lâmpada de azeite no canto iluminava precariamente a sala. Ele olha ao redor e não vê ninguém. Suas mãos já trêmulas pela idade. Seus olhos já não enxergam bem. O apóstolo de tantas viagens está solitário no final de sua vida. Apenas Lucas ainda estava por perto, assistindo em suas necessidades e escrevendo as cartas que ele ditava. Tíquico fora para Éfeso a fim de ajudar nas questões daquela igreja. Demas, tendo amado mais o mundo que a Deus tinha o abandonado e voltado para Tessalônica.

Apesar de todas essas dificuldades que ele mesmo estava passando por causa do ministério, Paulo escreve para Timóteo, encorajando-o a perseverar na sua vocação como pastor. Ele diz: Na arena da vida, eu lutei o bom combate, completei a carreira e em tudo isso guardei a fé. E só cheguei até o fim sustentado pela confiança no caráter e nas promessas de Deus. Por isso, tenho a certeza de que receberei o prêmio. E agora posso dizer: foi bom demais!

Aqui o significado de “guardei a fé” é a confiança em Deus, em seu caráter e em suas promessas que nos sustentará em tempos difíceis. Já deveríamos estar conscientes que, mesmo sendo filhos e povo de Deus, a nossa vida não é uma ascensão constante sem quedas. Não é um caminho plano sem percalços, mas, ao contrário, é um caminho de altos e baixos. Ora estaremos em campos verdejantes cheios de vida, ora nos veremos em vales sombrios de morte, salpicados de pedras e espinhos, e repletos de estradas sinuosas em que não conseguimos enxergar o que virá após a próxima curva. Sabemos disso por experiência própria e pela Bíblia:

“Leva-me para junto das águas de descanso; refrigera-me a alma.” (Salmo 23.2)

Davi, mesmo sendo chamado o homem segundo o coração de Deus, a quem Ele separou para ser rei sobre Israel e a quem escolheu para da sua descendência suscitar o Salvador, teve seus dias ruins. Muito ruins. Se cada dia com Cristo fosse sempre melhor que o anterior, então não precisaríamos ser reanimados.

A vida cristã normal é um processo repetitivo de restauração e renovação. Nossa alegria com Cristo não é estática. Ela flutua junto com a vida real e com as circunstâncias que se abatem sobre nós. Há dias em que somos tomados pela esperança e dias em que só há melancolia; dias de encorajamento e dias de inquietante desmotivação; dias de alegria e dias de amargura perturbadora; dias bons e dias maus. Teremos de passar muitas vezes pela aflição e pelas perdas durante nossa vida. Buscar a Deus e viver na graça de Cristo não nos isentará das lágrimas.

Porém, é na confiança em Cristo que nos manteremos a salvo nestes momentos de instabilidade. Conhecer a Deus e o seu caráter independente, infinito, justo e bom; conhecer as suas promessas pouco modestas de galardão e crer na espantosa natureza das recompensas prometidas nos evangelhos é o que nos reanimará. Elas nos ajudam a manter os olhos fixos em Cristo, e não nas dificuldades do caminho.

Quando olhamos para o Deus forte, constante, firme e inabalável, encontramos descanso em meio a nossas inquietações porque o ouvimos dizer à nossa alma: Aquietem-se e saibam que eu sou Deus; sou exaltado entre as nações, sou exaltado na terra (Salmo 46.10).

Descanse nisso!

Jônatas da Cunha Ferreira