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Realidade e Superficialidade

04.07.2009

Jonatas Cunha

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A superficialidade é um mal do nosso tempo. Stanley Milgram, professor de psicologia da Universidade de Nova Iorque, desenvolveu uma pesquisa sobre a experiência de viver na cidade. Uma de suas observações foi que a aceleração da vida urbana moderna e o aumento vertiginoso da concentração de pessoas nas cidades nos levam a uma redistribuição do nosso tempo e energia entre as pessoas de nosso círculo de relações. Dedicamos cada vez menos tempo para cada uma delas. Passamos a conhecer um número menor de pessoas e, no entanto, mantemos essas relações superficiais, mesmo com esses poucos conhecidos, porque sempre temos pouco tempo para elas.

Na sociedade moderna, permanência e constância são conceitos de pouca relevância. Aprendemos a “ficar”. O jovem “fica” com a namorada, os cônjuges “ficam” no casamento, o trabalhador “fica” no emprego, o sócio “fica” na sociedade, o crente “fica” na igreja. As relações modernas têm sempre um caráter superficial, anônimo e transitório. Construímos relacionamentos estéticos, mas é apenas aparência, porque não tem um pingo de autenticidade. Não são reais.

O problema piora porque tratamos Deus da mesma maneira. Cada vez temos menos tempo para ele. Não fazemos mais as orações rápidas antes do almoço, que dirá gastar algum tempo de joelhos dobrados diante do Pai. Aliás, por causa da necessidade de redistribuir o tempo, terceirizamos o relacionamento com Deus. Pedimos aos outros que orem por nós, mas nós mesmos não oramos.

Ler a Bíblia? Só se for daqui a pouco. Precisamos primeiro ler os emails, afinal de contas, pode ter chegado alguma mensagem importante nos últimos dez minutos. Culto doméstico, nem se fala. Não há tempo para isso. À noite, depois do trabalho, precisamos nos “atualizar” com as notícias de um telejornal qualquer, falando dos últimos acontecimentos do caso Michael Jackson.

Vamos à igreja, cantamos, ouvimos os sermões, ficamos animados, participamos dos eventos, dos projetos, das reuniões. No entanto, pergunto: o que há de real no nosso relacionamento com Deus? O que há de autêntico nas canções que cantamos? O que há de verdadeiro nos “améns” que dizemos? O que há de sincero? O que há de profundo em nossa comunhão com Deus? Na maioria das vezes, nada! É apenas aparência. O pior é que, à semelhança da igreja de Laodiceia, achamos que estamos ricos e abastados e não precisamos de coisa alguma.

Não temos mais comunhão com Deus. Nós “ficamos” com Deus. E só “ficamos” até sermos confrontados por ele. Quando isso acontece, desconversamos para tentar deixá-lo de lado. Tentamos nos esconder, afastando-nos de tudo que participávamos e que achávamos que era o nosso relacionamento com ele. Não queremos compromisso, nem cobranças, nem conseqüências, nem transformação. Queremos a experiência da novidade, da exterioridade, não da transformação interior. Queremos a aparência, não a essência. Queremos “ficar” e não “ser”.

Termino com as palavras de Richard Foster: “a superficialidade é a maldição de nosso tempo. A doutrina da satisfação instantânea é, antes de tudo, um problema espiritual. A necessidade urgente hoje não é de um número maior de pessoas inteligentes, ou dotadas, mas de pessoas profundas”.

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